Há quase quatro anos, a Fundação CASA Campinas desenvolve um projeto de aquaponia que transforma o aprendizado em ferramenta de ressocialização. Por meio de um sistema sustentável que une a criação de peixes ao cultivo de hortaliças, adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa participam de uma iniciativa interdisciplinar que alia educação, qualificação profissional e desenvolvimento socioemocional.
Durante cada ciclo de três meses, cinco adolescentes participam do projeto, com um total de 20 encontros realizados duas vezes por semana. Na etapa inicial, os jovens são matriculados no curso on-line “AquaResidencial”, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com carga horária de 24 horas. O curso apresenta o passo a passo para a montagem e o manejo de sistemas de aquaponia em escala residencial, abordando noções sobre produção integrada, criação de peixes, cultivo de hortaliças e qualidade da água.
Entre os conteúdos trabalhados estão os principais aspectos históricos da aquaponia no Brasil e no mundo, as diferenças entre esse sistema e outros modelos de produção, os princípios biológicos envolvidos, as necessidades nutricionais de peixes e vegetais e os conceitos teóricos relacionados à qualidade da água. Os adolescentes também aprendem a identificar os componentes do sistema, realizar a montagem do filtro biológico, o bombeamento da água, o tanque de criação de peixes e as canaletas de cultivo, além de técnicas de semeadura, transplante, colheita, monitoramento, manutenção e avaliação do funcionamento do sistema.
Estrutura instalada na área interna do CASA Campinas permite o cultivo de hortaliças em sistema integrado e sustentável, utilizado como ferramenta pedagógica no projeto socioeducativo (Foto: Divulgação/FCASA)
As atividades práticas acontecem no sistema de aquaponia instalado na área perimetral do centro socioeducativo, sob acompanhamento pedagógico do agente educacional José Cláudio dos Santos. No projeto, os adolescentes aprendem sobre um modelo de produção sustentável que combina a criação de peixes ao cultivo de plantas sem o uso de solo, em um sistema de circulação contínua da água. Os nutrientes gerados pelos peixes são aproveitados pelas plantas, que contribuem para a manutenção da qualidade da água, promovendo o uso eficiente dos recursos naturais. O projeto funciona como um laboratório pedagógico baseado na Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP), passando por etapas de planejamento, construção, operação, monitoramento, análise e colheita.
De acordo com o agente educacional do CASA Campinas, o projeto contribui diretamente para o processo de ressocialização. “O Projeto Aquaponia em CASA constitui uma ferramenta pedagógica relevante, pois promove responsabilidade, disciplina e o desenvolvimento de competências profissionais alinhadas à sustentabilidade”, afirma.
A iniciativa articula diferentes áreas do conhecimento a partir da prática da aquaponia, envolvendo cálculos matemáticos, noções de física e química aplicadas ao funcionamento do sistema, estudos sobre biologia de peixes e plantas, além de reflexões sobre sustentabilidade, território e produção de alimentos. O projeto também estimula a leitura, a produção de registros e a comunicação dos resultados, com o apoio das áreas de psicologia e serviço social no desenvolvimento de habilidades socioemocionais e na construção de projetos de vida.
Ao final de cada ciclo, os adolescentes realizam visita técnica à unidade da Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna, ampliando o contato com o universo científico e profissional. A produção de hortaliças é destinada às famílias dos jovens e aos servidores da unidade.
Para a presidente da Fundação CASA, Claudia Carletto, iniciativas como essa reforçam o papel da socioeducação na construção de trajetórias mais positivas. “Nosso compromisso é reintegrar esses adolescentes à sociedade, oferecendo oportunidades reais de aprendizado, qualificação e reflexão. Quando investimos em educação e responsabilização, contribuímos para que esses jovens construam novos projetos de vida e, consequentemente, para uma sociedade mais segura”, destaca.