Maurício Monteiro cumpriu pena na Casa de Detenção, em São Paulo, e palestrou para jovens para inspira-los a traçar novos caminhos
O sistema prisional é muito diferente do sistema socioeducativo. O cumprimento de uma pena marca quem passa por ela. Essas vivências e experiências foram contadas aos adolescentes em internação provisória e internação sanção no CAIP São Francisco, na capital paulista, por três egressos do sistema penitenciário na última segunda-feira (21). Um deles foi Maurício Monteiro, que cumpriu pena no extinto Complexo Penitenciário do Carandiru, conhecido como a Casa de Detenção do Carandiru, na cidade de São Paulo. Hoje ele atua na organização social Instituto Resgata Cidadão (IREC), na capital.
O foco da ação com os jovens foi de mostrar as experiências de vida, buscando inspirá-los e resgatá-los por meio das histórias de quem passou pelo sistema penal adulto. Além de Monteiro, também conversaram com os adolescentes sobre suas trajetórias antes, durante e depois das penas que cumpriram, outros dois integrantes do IREC: a educadora Helen Baum, que cumpriu pena por tráfico de drogas, e Wesley Luiz.
Monteiro, por exemplo, ficou preso por 16 anos e passou por mais de 30 penitenciárias, incluindo o Complexo do Carandiru. Em 2011 saiu em condicional e, desde então, só evoluiu na sua vida. Formou-se em Gestão Ambiental e Sanitária, é técnico em Meio Ambiente e também se graduou em Educação Física. Atua nos projetos sociais do IREC em diferentes linhas de frente, desde a realização de palestras até ser instrutor de boxe. Ele ainda produz conteúdo sobre seu passado e vivências para um canal no YouTube e redes sociais. Sua meta é sempre mostrar para os jovens que o crime não tem romance e que a verdade do cárcere é nua e crua.
Já Helen conviveu com a realidade da dependência química. A partir dos 17 usou drogas de forma esporádica, levada por colegas do trabalho e nas baladas. Aos 24 anos engravidou e parou com o uso. Porém, em 2010, quando ingressou na faculdade de Direito, voltou a fazer o uso “recreativo” de drogas. Quando sua mãe descobriu, pediu a guarda do neto, concedida pelo Poder Judiciário.
Esse foi o estopim para ela, com cerca de 38 anos, ir morar na chamada Cracolândia, no centro de São Paulo, onde viveu e usou drogas pesadas por cerca de 3 anos, até ser presa por tráfico. No final, cumpriu cerca de cinco anos de pena, superou o vício e atua como pesquisadora no Instituto Rino Educação, é pós-graduada em Direito Penal e mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC).
Para o diretor do CAIP São Francisco, Marcelo da Costa Lima, o encontro foi tocante e produtivo. “Os convidados abordaram todos os desafios que enfrentaram e enfrentam, suas transformações e, talvez o mais importante, os motivos que os levaram a tomar a decisão de recomeçar”, contou. “Os jovens participaram ativamente, ouviram com atenção, fizeram perguntas e refletiram sobre os impactos de suas escolhas nas próprias vidas.”
O antigo Complexo Penitenciário do Carandiru foi totalmente desativado em 2002, quando alguns de seus edifícios foram implodidos, cedendo espaço onde hoje de encontra o Parque da Juventude, na zona Norte da capital paulista.
Parte das edificações, contudo, se transformaram e ganharam nova função social, abrigando equipamentos públicos, como biblioteca, áreas de esporte e cultura, a Escola Técnica Estadual (Etec) Parque da Juventude, além de um centro de memória de quem viveu no Complexo, o Espaço Memória Carandiru.
Foi por meio do Espaço que a agente educacional Iara Luccas Ribeiro, do CAIP São Francisco, articulou a realização da conversa com os egressos do sistema penal. O local possui acervo com objetos e informações de quem viveu recluso na Casa de Detenção um projeto de mediação entre os egressos e os visitantes.
Os jovens atendidos no CAIP São Francisco se encontram nos programas de internação provisória (medida cautelar com prazo de até 45 dias para a sentença) e internação sanção (aplicada pelo Poder Judiciário no descumprimento de medida socioeducativa anterior).
Sobre a Fundação CASA
A Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (CASA), vinculada à Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania, aplica medidas socioeducativas conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE). Atendendo jovens de 12 a 21 anos incompletos em São Paulo, a Fundação executa medidas de privação de liberdade e semiliberdade determinadas pelo Poder Judiciário, garantindo os direitos previstos em lei, pautando-se na humanização, e contribuindo para o retorno do adolescente ao convívio social.