Pouca gente imagina, mas a história de milhares de crianças e adolescentes atendidos pelo Estado de São Paulo ao longo de mais de um século está guardada em documentos, fotografias, registros e relatos que atravessaram gerações. Esse patrimônio passa a contar, a partir do dia 31 de março, com um espaço dedicado à sua difusão pública e à mediação cultural. A Fundação CASA, vinculada à Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania, inaugura a "CASA da Memória Sergio Ranalli – Tecendo Histórias", no antigo Complexo do Tatuapé, na capital paulista.
O espaço nasce com uma exposição inaugural: "A Arte que Transforma na Medida Socioeducativa", mostra temporária que coloca em evidência as produções artísticas realizadas por adolescentes no cotidiano da medida socioeducativa em São Paulo, nas linguagens de texto, pintura, imagem, música e audiovisual. A proposta parte de uma premissa: quando um adolescente encena, pinta, canta ou produz qualquer trabalho que se traduza em produto cultural, há ali arte de verdade, com função estética e valor humano.
A CASA da Memória, um trocadilho com a abreviação "CASA" (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente), está instalada nas dependências do Núcleo de Acervo Institucional e Documental (NAID), que reúne cerca de 660 mil registros históricos e prontuários com informações datadas desde 1925, além de acervo iconográfico composto por fotografias, plantas arquitetônicas, pinturas e materiais audiovisuais produzidos por crianças e jovens desde o início do século XX. Trata-se de um conjunto documental que permite compreender como as políticas públicas voltadas à infância e à juventude foram estruturadas em diferentes períodos históricos e como esse olhar foi se transformando ao longo do tempo.
O acervo vai além do valor documental. Pessoas buscam o NAID para encontrar registros de familiares ou para reconstruir a própria história. Antigos internos retornam para conhecer melhor a própria trajetória. Há ainda casos de personalidades públicas que descobrem vínculos com a instituição. É esse patrimônio que a CASA da Memória agora torna acessível ao público.
O espaço funcionará como ambiente de encontro entre memória, educação e debate público, com exposição de longa duração estruturada como linha do tempo, mostras temporárias sala de formação para servidores da Fundação CASA, centro de referência para pesquisadores e programação cultural contínua, com visitas mediadas, rodas de conversa com pesquisadores e convidados, cine-debates e ações educativas ao longo do ano.
Para o secretário de Estado da Justiça e Cidadania, Arthur Lima, a criação da CASA da Memória é um ato de responsabilidade do Estado com sua própria história. "Políticas públicas melhores se constroem quando entendemos os erros e acertos do passado. Esse espaço não é só um arquivo, é um instrumento de reflexão para gestores, pesquisadores, educadores e para a sociedade como um todo. O Governo do Estado de São Paulo se orgulha de apoiar uma iniciativa que coloca a dignidade de crianças e adolescentes no centro da memória pública."
O projeto é desenvolvido pela Universidade Corporativa da Fundação CASA (UNICASA), responsável pela concepção pedagógica e pelas ações educativas, em parceria com o NAID, que responde pela curadoria, preservação e organização técnica do acervo, e com a Gerência de Arte e Cultura (GAC) da Instituição, que atua na parte curatorial das exposições. A iniciativa também conta com articulação com universidades, museus, memoriais e outras instituições parceiras.
Marco histórico e transformação institucional
A inauguração coincide com um marco importante: em 2026, completam-se 20 anos da mudança de nome da antiga Febem para Fundação CASA, transformação que simbolizou uma virada na forma de pensar e executar a política socioeducativa em São Paulo. O espaço está inserido em um território historicamente ligado às políticas públicas voltadas à infância e à juventude e que foi cenário dessa transformação. Mesmo após a desativação do antigo Complexo do Tatuapé, o local mantém valor simbólico e passa a integrar a experiência proposta ao visitante.
"Quando falamos dos 660 mil prontuários guardados aqui, não estamos falando de números. Estamos falando de crianças que tiveram suas histórias registradas, muitas vezes no momento mais difícil de suas vidas. A CASA da Memória existe para que essas histórias não se percam. Vinte anos depois da Febem virar Fundação CASA, esse espaço é a prova de que a transformação foi real e que seguimos comprometidos com um futuro diferente para cada jovem que passa pela nossa instituição", afirma a presidente Claudia Carletto.
Homenagem ao servidor Sergio Ranalli
O espaço leva o nome de Sergio Ranalli, servidor que dedicou 38 anos à organização e preservação do acervo histórico da instituição, desde o período da Pró-Menor, passando pela Febem, até a Fundação CASA. Foi graças ao seu trabalho que milhares de documentos atravessaram décadas preservados. O nome foi escolhido por meio de concurso cultural com participação de servidores e representa um reconhecimento simbólico a quem ajudou a proteger a memória institucional e, junto com ela, as histórias de milhares de crianças e jovens atendidos ao longo do último século.